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title: Cyrano de Bergerac: a peça que o francês sabe de cor
description: Cyrano de Bergerac (1897), a peça de Edmond Rostand. O nariz, a tirada das tiradas, a carta de Roxane. Por que o panache francês continua emocionando 130 anos depois.
url: https://profkelly.com.br/blog/cyrano-de-bergerac-edmond-rostand-teatro-frances
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Teatro

# Cyrano de Bergerac: a peça de Edmond Rostand que todo francês conhece de cor

28 de dezembro de 1897. O Théâtre de la Porte Saint-Martin aplaude por uma hora. Nasce a peça em verso mais amada da França — e a palavra *panache* ganha sentido moderno.

Por **Prof Kelly** · 17 de fevereiro de 2026 · Atualizado em 24 de julho de 2026 · 8 min de leitura

Se você pergunta a um francês qual é a peça nacional, ele vai hesitar entre Molière e Racine — depois vai dizer Cyrano. Porque é a única que ele aprendeu a recitar de cor na escola e que ainda lembra trinta anos depois. Uma peça em alexandrinos rimados, escrita em 1897, sobre um espadachim com um nariz grande demais que ama a mulher errada. E que continua arrancando lágrimas.

## Quem foi Edmond Rostand

**Edmond Rostand** nasceu em 1868 em Marselha, numa família burguesa do sul. Subiu para Paris, estudou direito por obrigação familiar e literatura por amor. Casou-se aos 22 anos com a poetisa Rosemonde Gérard. Escreveu várias peças menores nos anos 1890 sem grande sucesso.

Em 1897, aos 29 anos, terminou *Cyrano de Bergerac*. Estava convencido de que ia fracassar. Antes da estreia, pediu desculpas ao ator principal, **Constant Coquelin**, por tê-lo metido naquela situação. Coquelin, que tinha 56 anos e era a maior estrela do teatro francês, sorriu e foi para o palco.

Na noite da estreia, no **28 de dezembro de 1897**, o público aplaudiu durante *uma hora*. Em pé. Sem parar. Rostand foi condecorado com a Legião de Honra ainda no camarim, no mesmo intervalo. Aos 33 anos, foi eleito para a Académie française — o membro mais jovem da história até então. Morreu em 1918 da gripe espanhola. Sua única outra obra realmente lida hoje é *L'Aiglon* (1900), sobre o filho de Napoléon.

## Quem foi o verdadeiro Cyrano

O Cyrano da peça é inspirado num personagem real: **Savinien de Cyrano de Bergerac** (1619-1655), espadachim, escritor e livre-pensador francês do século XVII. Ele realmente existiu, realmente tinha o nariz grande, realmente serviu na Guerra dos Trinta Anos, e realmente escreveu textos de ficção científica avant-garde sobre viagens à Lua e ao Sol (publicados postumamente).

Mas o Cyrano histórico não estava apaixonado por nenhuma Roxane. Não morreu de uma viga caindo na cabeça. E não tinha amigo nenhum chamado Christian de Neuvillette. Rostand pegou o personagem, a época (Paris de 1640), a profissão, o nariz — e inventou o resto.

## A história em 30 linhas

Paris, 1640. **Cyrano** é um cadete da guarda gascão: poeta, espadachim, livre-pensador, e dotado de um nariz extraordinariamente grande. Ele ama secretamente sua prima, a bela **Roxane**. Mas tem certeza de que ela jamais o amará — por causa do nariz.

Roxane confia a Cyrano um segredo: ela está apaixonada por **Christian de Neuvillette**, um cadete bonito que acaba de chegar ao regimento. Pede a Cyrano para protegê-lo.

Cyrano descobre que Christian é bonito mas burro como uma porta — incapaz de alinhar duas palavras românticas. E que Roxane quer cartas de amor brilhantes. Então Cyrano propõe um pacto: ele vai escrever as cartas, Christian vai assiná-las. Christian aceita.

A famosa **cena do balcão** (Ato III): Christian, embaixo da varanda de Roxane, tenta improvisar e fracassa. Cyrano, escondido na sombra, sussurra as falas para Christian repetir. Quando Christian congela, é Cyrano quem termina o discurso, falando diretamente para a mulher que ama, fingindo ser outro homem.

Roxane se casa com Christian às pressas. Os dois vão para o cerco de Arras na guerra. Christian descobre a verdade e, num impulso, expõe-se ao fogo inimigo — morre. Roxane, viúva, entra num convento e passa **quinze anos** sem saber.

Quinze anos depois, Cyrano vai visitá-la no convento, como faz toda semana. Está mortalmente ferido — uma viga atirada de uma janela por inimigos políticos. Sentado no banco, lê em voz alta a última carta de Christian a Roxane. A luz vai caindo. Roxane percebe que ele lê *de memória*. E que a voz é a do balcão. Cyrano confessa, e morre nos seus braços. Última palavra: *"mon panache"*.

![Cena da peça Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand](/blog/img/cyrano.jpeg)

Cyrano: poeta, espadachim, mau pretendente. O herói que perde a moça mas ganha a posteridade.

## O que ficou na língua francesa

A peça deixou expressões que entraram no francês cotidiano:

**"Faire son Cyrano"** — falar em nome de outra pessoa numa situação romântica. Ainda usado.

**"Avoir du panache"** — ter brio, estilo, coragem com elegância. *Panache*, literalmente, é a pluma branca no chapéu do cadete. Cyrano transformou a palavra em conceito.

**"Une tirade"** — um monólogo brilhante. A *tirade des nez* de Cyrano, no Ato I, é a tirada por excelência. É a cena em que ele responde a um marquês que zombou de seu nariz, listando vinte maneiras melhores e mais espirituosas de insultá-lo. Decorada pelos alunos franceses até hoje.

**"Ah! non! c'est un peu court, jeune homme!"** — primeira fala da tirada. Frase-marca, citada em conversas para criticar uma observação superficial.

## Onde ver Cyrano hoje

**Cinema:** a referência absoluta é a versão de **Jean-Paul Rappeneau** de 1990, com **Gérard Depardieu** num papel histórico. Indicada a 5 Oscars (ganhou um). Disponível na maioria das plataformas francesas. Legenda em português brasileiro existe em DVD.

Versão recente: *Cyrano* (2021), de Joe Wright, com Peter Dinklage — adaptação musical livre, em inglês. O nariz vira a baixa estatura, o que muda o sentido mas conserva a estrutura emocional.

**Teatro ao vivo:** Cyrano está sempre em cartaz em Paris. A [Comédie-Française](https://www.comedie-francaise.fr) mantém uma produção alternada na temporada. Verifique também o Théâtre Marigny, o Théâtre du Châtelet, e o festival d'Avignon no verão.

**Texto integral:** em domínio público. Disponível gratuitamente no [Project Gutenberg](https://www.gutenberg.org/ebooks/1257) (FR). Em PT-BR, a tradução clássica é a de Carlos Porto Carrero (1907), refinada por Fábio Fonseca de Melo (Editora 34). Ler em verso alexandrino é difícil no começo — mas é a única forma de sentir o ritmo da peça.

## Por que ainda funciona

Cyrano tem mais de 130 anos, está em verso clássico, fala de uma guerra do século XVII, e mesmo assim continua emocionando plateias adolescentes. Por quê?

Porque é a peça sobre a **distância entre o que somos e o que aparentamos ser**. Cyrano é brilhante e feio. Christian é bonito e oco. Roxane é inteligente mas se deixa enganar pelos olhos. A peça inteira é a anatomia desse equívoco — e do dilema moderno, ainda agora, de quem fala primeiro com o rosto antes de falar com a alma. As redes sociais não mudaram isso. Só amplificaram.

E porque, no final, Cyrano escolhe morrer sem o prêmio, segurando apenas o seu *panache*. É o herói que perde, mas que ensina o que sobra quando tudo falha: a dignidade do estilo.

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